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“O Câncer de mama não é uma sentença de morte.” Olufunmilayo Olopade

ZH – 20/07/2014  por Demétrio Rocha Pereira

A médica nigeriana Olufunmilayo Olopade, Funmi, se ergueu à condição de autoridade mundial em oncologia ao descobrir que mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 explicavam a alta incidência do câncer de mama entre afro-americanas.

Médica nigeriana Olufunmilayo Olopade

Médica nigeriana Olufunmilayo Olopade

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O Rio Grande do Sul é o segundo estado brasileiro com maior incidência de câncer de mama, e a típica paciente gaúcha costuma ser diagnosticada com menos de 50 anos. A genética pode ajudar a explicar isso?

Todos temos algo em nossas famílias, seja diabetes, asma, câncer de mama ou de cólon. Em palestras peço que se levante quem já teve câncer em suas famílias, e dificilmente alguém fica sentado. É uma doença do envelhecimento, fácil de aparecer com a idade. Mas há pacientes muito jovens, e é importante sabermos o porquê. Os judeus asquenazes, sejam os deste país ou de Israel, precisam saber da sua predisposição. Quando falamos de um estado onde uma parcela importante das mulheres tem câncer de mama antes dos 50 anos, identificamos que é possível haver uma predisposição genética. Foi identificada, por exemplo, uma mutação no gene TP53 muito comum na área que vai de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Um trabalho coordenado pela Dra. Patrícia Ashton-Prolla (UFRGS/HCPA) e o Núcleo Mama Porto Alegre, com cerca de 9 mil pacientes da periferia da cidade, mostrou que cerca de 6% das mulheres que consultam em unidades do Saúde da Família tinham histórias sugestivas de risco genético de câncer.

Desde novembro do ano passado, devido a uma portaria do Ministério da Saúde, o governo não cobre mais mamografias para mulheres de até 49 anos. O que a senhora acha disso?
As pesquisas nos EUA, na Europa e no Canadá sempre levaram em conta mulheres de origem europeia. Quando digo que a mamografia começa aos 50, ficam de fora as asiáticas, as latinas, as africanas. Não fizemos a pesquisa, não podemos colocar tudo no mesmo saco. Por isso falamos em medicina personalizada. E o problema fica mais complexo com a miscigenação. A genética é poderosa, mas apenas aponta para um lugar. Ela interage com o ambiente. As italianas do Brasil são iguais às da Itália ou mais parecidas com as demais brasileiras? Se você não conhece o problema da sua população, você não saberá resolvê-lo. Se a média de idade das pacientes é 48 anos e você pede mamografia aos 50, como isso vai funcionar? Não funciona. Os médicos daqui estão prontos para trazer evidências para o debate. Juntem os pesquisadores, estudem os dados e tracem uma política.

Temos estudos indicando que 75% das pacientes brasileiras descobrem o câncer de mama quando o tumor já está em fase avançada. Nos EUA, o índice é de cerca de 20%. Como mudar o nosso cenário de diagnóstico tardio?
Tivemos esse problema nos EUA, não conseguimos prover mamografia para todo mundo. Precisamos de ideias inovadoras. Não cometam o mesmo erro que os EUA e outros países cometeram por 30 anos. Podemos pular degraus, desenvolver outras estratégias de escaneamento. Um simples exame de sangue pode identificar se alguém tem risco superior à população em geral. Passamos do ponto de gastar todos os esforços pensando apenas em mamografia. O Brasil deve pular etapas, buscar as melhores tecnologias e garantir que cada mulher tenha o seu risco avaliado e condições de prevenção.

A Corte Suprema americana derrubou patentes sobre genes ligados ao câncer de mama pouco depois da mastectomia de Angelina Jolie vir a público. Até que ponto famosos podem ajudar ou atrapalhar essa construção de políticas para a saúde?
A presidente do Brasil é uma sobrevivente do câncer. Isso, em si mesmo, deveria ser a cara do que o câncer pode ser para todos, para cada família neste país. Após os casos de Mrs. (Betty) Ford (primeira-dama de Gerald Ford) e Mrs. (Nancy) Reagan (primeira-dama de Ronald Reagan), toda americana percebeu que, se mulheres do presidente podem ter câncer de mama, é melhor fazer algo a respeito. O trabalho da Dra. Prolla foi financiado pela fundação Susan G. Komen, iniciada pela irmã de Susan, Nancy Brinker, que vivia em uma cidadezinha do Illinois e prometeu à irmã que nenhuma mulher jamais passaria pelo que ela havia passado. Onde você vive não deve determinar se você viverá ou não após o diagnóstico do câncer de mama. Como um trabalho no Brasil foi financiado por Susan G. Komen? Mulheres marchando, pedindo, militando. Angelina disse, na Suprema Corte, que a genética importa. No Brasil também importa.

A senhora também criticou a atitude de Angelina. Por quê?
Há diferentes formas de revelar as coisas. As notícias nos EUA giram sempre em torno de celebridades. É uma sociedade voltada para as celebridades. Fazemos testes genéticos desde 1994, quando os genes BRCA1 e BRCA2 foram identificados, e já sabíamos o que fazer e como fazer. A maior parte das mulheres não precisa passar pela retirada das mamas. Mas, como todo mundo em Hollywood faz cirurgia plástica, é muito fácil dizer “mesmo não tendo câncer, tirei os meus seios, havia risco”. Na verdade, seria mais importante que ela tivesse retirado os ovários, o que só vai fazer agora. Mas, por agenda política, esperávamos uma decisão da Corte Suprema que ela influenciou ao vir a público, e agora mais pessoas podem fazer pesquisa genética. Como celebridade, ela ajudou o processo. Mas, para as mulheres nas ruas, sem dinheiro para cirurgia plástica nem acesso a testes genéticos… Sempre que você tem esse tipo de desigualdade na sociedade, vemos a importância da saúde pública.

Por que a maioria das mulheres com risco de desenvolver o câncer de mama não precisa passar pela mastectomia?
A probabilidade de ter câncer se você tem o BRCA1 é de 40% até 87%. Uma grande margem. Essa é a beleza do corpo humano. Para o câncer de ovário, a probabilidade é de 11% a 40%. Quando converso com minhas pacientes, digo que, mesmo com a mutação, elas têm pelo menos 60% de chances de não desenvolver câncer.

Leia na íntegra…

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/planeta-ciencia/noticia/2014/07/podemos-acertar-o-calcanhar-de-aquiles-do-cancer-de-mama-diz-funmi-olopade-4554966.html